Conselho de mestres de Itabuna leva discussões ao Senado

O Conselho de mestres de capoeira de Itabuna que tem como presidente o mestre Ninja da Escola Celeiro de Bamba é um dos coletivos de mestres que vêm se articulando através de grupos de Whatsapp para lutar contra ações que prejudicariam a capoeira, a exemplo do Projeto de Lei 31/2009 que trata da profissionalização do capoeirista e da regulamentação da profissão de capoeira. No dia 19 de maio, os capoeiristas conseguiram o primeiro passo dessa união ao encaminhar correções ao PLS (Projeto de Lei do Senado) 17/2014 que reconhece o caráter formativo e educativo da capoeira, contrário ao antigo projeto que fere os processos tradicionais da capoeira.
O texto a seguir, do mestre Duda Carvalho de Salvador, mostra o resultado dessas discussões.



O senador Otto Alencar (PSB-BA) aprova projeto de lei que reconhece o ensino da capoeira nas escolas. Na sequência, ele toca o berimbau levado pelo mestre Brucutu (da foto acima)

Por Mestre Duda Carvalho-BA
Salvador, 20 de maio de 2015
A Capoeira Celebra a liberdade

Ontem, 19 de maio de 2015, os capoeiras em todo Brasil puderam dar um grande grito de vitória com o parecer favorável ao projeto 17/2014 na comissão de Educação, Cultura e Esporte do senado, que teve como relator o Senador Otto Alencar (PSD). Trata-se de uma vitória, porque desde que saiu do código penal no inicio do século passado, e mais precisamente a partir de 1998, a capoeira vem lutando contra oportunistas que tentam usá-la para saciar interesses de minorias políticas. Diversas foram as iniciativas de grupos que viam na capoeira a possibilidade de usá-la com interesses próprios sem levar em consideração a real demanda da capoeira e dos capoeiristas. Assim foi quando o sistema CREF/CONFEF (Conselho Federal e Regional de Educação Física) tentou impor que para o capoeirista pudesse dar aulas, deveria estar vinculado a esse conselho e, em um futuro próximo, ter sua formação de mestre ligada à instituições de ensino superior. Ficou evidenciado o caráter mesquinho, oportunista, usurpador e incoerente da proposta, visto que bastava o capoeirista pagar ao sistema para ter sua liberação. Também ficou claro que os propositores de tal lei desconheciam significativamente as diferenças entre as culturas populares e tradicionais e os saberes acadêmicos e por isso propuseram a formação do capoeirista associada as universidades o que se configura como atentado as culturas populares e a tradição da capoeira. 

Posteriormente, um projeto de lei de número 031/2009 foi proposto no sentido de profissionalizar o capoeirista, alegando garantias fantasiosas e escondendo a real intenção de regulamentar a profissão de capoeira, ou seja, visto o grande número de capoeiristas trabalhando com capoeira, dirigentes políticos não capoeiristas - intencionados em fazer do seguimento da capoeira plataforma de eleição - vislumbraram o potencial econômico desse seguimento e encamparam a luta pela aprovação desse projeto visando posteriormente a criação de conselhos, sindicatos e outras instituições reguladoras, ou melhor dizendo, arrecadadoras. Para além do processo de institucionalização, o grande risco do projeto é a ruptura com as tradições, autonomia e liberdade, características fundamentais da capoeira. Como parte das estratégias políticas surgiu um Congresso Nacional “unitário” de Capoeira, o CNUC que desde sua primeira edição manobrou os capoeiristas para aprovação desse projeto. Revelado as máscaras das manobras desses dirigentes, mestres de capoeira brasileiros em todo o mundo se levantaram para lutar contra essas manobras de opressão e relembraram a luta de seus ancestrais pela libertação. Assim o Conselho de Mestres da Cidade de Itabuna-BA, conduzido pelo Mestre Ninja, o Coletivo Quilombo do Cerrado formado por capoeiras de todas as gerações do DF, encaminharam por intermédio do Mestre Brucutu de Brasília-DF, correções ao PLS (Projeto de Lei do Senado) 17/2014 que reconhece o caráter formativo e educativo da capoeira, contrário ao antigo projeto que fere os processos tradicionais da capoeira e abre margens para sua perca de autonomia e liberdade, bem como trata a capoeira de maneira unilateral como esporte. 

Apresentada pelo Mestre Brucutu as correções ao Senador Otto Alencar (PSD), capoeirista que conviveu com Mestre Bimba, ontem a comissão de Educação do Senado deu parecer favorável ao projeto, o que significou uma conquista dos capoeiristas de todo o mundo, mostrando autonomia frente aos dirigentes oportunistas e garantindo conquistas de direitos aos capoeiristas na medida que o projeto prevê a inserção da capoeira nas escolas de ensino público e privado, dissociando o capoeirista da obrigatoriedade de estar submisso a conselhos, instituições e formações estranhas àquelas exigidas nas suas próprias dinâmicas internas da cultura popular e tradicional. Essa conquista é resultado de um coletivo de mestres de capoeira que vem se articulando desde que as máscaras de dirigentes c oportunistas caíram. E como bons capoeiristas, vai ai um conselho aos incautos:

“Valha-me Deus Senhor São Bento buraco velho tem cobra dentro"



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